O atraso das notificações dos casos de COVID-19 não ocorre por incompetência

O atraso das notificações dos casos de COVID-19 não ocorre por incompetência

Há uma questão crucial na divulgação dos dados desta pandemia e tenho visto pouca gente discutindo sobre isso.  Há um atraso de mais de dez dias nas notificações de óbitos. Isto significa que para que o paciente morto no hospital se torne um número na televisão perde-se quase uma semana. Um tempo precioso para a tomada de decisões dos gestores da saúde e para os políticos. Pelo menos os que de fato querem proteger a população.

Não bastasse muitas mortes e casos graves não serem sequer testados por que simplesmente não há testes, os testes realizados demoram dez dias ou mais para ter resultados publicados. Só então, viram um número a mais no quadro de mortes que vemos na TV. Ou seja, se você está achando que as coisas estão saindo do controle, saiba que elas saíram, sim, só que foi há quase duas semanas.

Neste momento, o caos já está instalado em algumas cidades, já há falta de leitos de UTI, já há congestionamento na porta dos cemitérios, já há valas comuns e tratores trabalhando para atender a demanda por mais sepultamentos e os profissionais de saúde já estão dando de cara com a tragédia amplamente anunciada. No entanto, mesmo com telejornais e portais na internet noticiando o horror, os números oficiais estão assim. Contidos, leves, pouco assustadores.

Quem olha para os relatórios oficiais e vê os números lá expostos pensa: “poxa, vou sair de casa, sim, por que o que são estas mortes por dia para um país de 200 milhões de habitantes?” Então, você sai, você passeia no supermercado, você bate palma pra reabertura de shopping e você certamente cruza com pessoas infectadas. E aqui é importante lembrar que 80% das pessoas que carregam e espalham o vírus por aí não manifestaram nenhum sintoma. Essas pessoas vão passar ilesas pela infecção mas, mesmo saudáveis, causaram enormes tragédias para outras pessoas. Hoje já se demonstrou que há pessoas em maior risco para adoecimento grave mas em todas as UTI’s do país há pacientes que não pertencem a nenhum grupo de risco para desafiar o racional biológico que nos guia.

Além do que, vale ressaltar que os grupo de de risco não são restritos. Pessoas jovens com histórico de asma, por exemplo, podem morrer de COVID-19, como infelizmente estão morrendo. Oficialmente, os grupos de risco que, segundo algumas análises, podem morrer que não farão falta são nossos pais, mães, avôs e avós.

Para os cidadãos que saem às ruas sem real necessidade exigindo que tudo volte ao normal, vale um exercício bem básico de tentar antecipar o futuro. O infectado demora uns 5, 7 dias pra adoecer, uns outros 5, 7 dias pra ficar grave, mais uns 15, 20 dias pra morrer e o teste, se for feito, demora mais uns 10, 15 dias pra chegar. Ou seja, as consequências do egoísmo de quem saiu hoje achando que era invencível só vão aparecer na televisão em 30 ou 40 dias.

Então, olhe para os números sabendo que você está olhando para o passado. Saiba que você mora num país sem comando onde o presidente é o único líder mundial que não reconhece a gravidade desta situação. Busque informação de forma independente e antes de sair feito bobo seguindo o alguém te disse, pense, leia de forma crítica, busque outras fontes e veja o que vale mais.

Em Manaus, cidade que registrava uma média de 30 sepultamentos por dia, com a explosão de casos de COVID-19 passou a registrar mais de 100 há alguns dias. No dia 22 de abril, a cidade sepultou 136 corpos. Pode-se dizer que somente neste dia houve um aumento suspeito de 106 mortes. Se considerarmos que os índices de mortes violentas e por acidentes de trânsito por exemplo despencaram, essa diferença é ainda maior.

Faça uma conta básica e considere que há 70 a 80 possíveis mortes por Covid-19 em Manaus ocorrendo há quase 10 dias. Compare com o número oficial de mortes. Em 21 de abril, este número era de 193.

Senhoras e senhores, há pessoas de todas as idades em estado crítico nas UTIs do país inteiro. Fique em casa!

Créditos da imagem: Sandro Pereira – O Globo